Sermig

Três Sins para aprender a viver a misericórdia de Deus

Lorenzo, Simone e Andrea, os primeiros três sacerdotes do SERMIG - Fraternidade da Esperança, respondem a algumas perguntas sobre o sentido do seu sim sacerdotal pronunciado no início do Ano da Misericórdia.

Quais são os sentimentos de vocês depois de terem pronunciado o sim sacerdotal?

O sim que pronunciamos na ordenação sacerdotal foi preparado como uma grande vela, costurada ao longo dos anos, confeccionada um pedacinho por vez, mas já pronta para ser içada a qualquer momento. Uma vela capaz de se estender, de se alargar, justamente como um sim, que pode crescer continuamente. O sim sacerdotal talvez possa parecer um sim mais evidente, mas temos profunda consciência de que o SERMIG, a Fraternidade da Esperança e a Igreja de que fazemos parte são como uma grande embarcação, que só vai em frente graças ao vento do Espírito que alça muitíssimas velas prontas a acolhê-lo.

Conscientes dessa fraternidade, dessa comunhão, pensamos que o nosso sim ao sacerdócio seja fruto da alegria e da disponibilidade que vimos em muitos sins que não querem parar de crescer, de multiplicar a própria superfície para que esta viagem – que não nos pertence, mas que tentamos tornar nossa todos os dias – possa continuar: é a viagem com Jesus, o verdadeiro motivo da nossa caminhada.

No dia 3 de outubro, durante a celebração da ordenação, tínhamos bem em mente todas essas velas que nos acompanharam e nos sustentaram ao longo dos anos. Naquele dia, um vento impetuoso entrou na Catedral de Turim, uma grande emoção era sentida fisicamente, era vista no rosto dos presentes que até um minuto antes nos perguntavam sorrindo: “Vocês estão prontos?”. Nós sabíamos que estávamos “prontos” graças ao sim de tantas pessoas, ao exemplo de cada uma delas. Então, o nosso sim, o nosso abrir-se como uma vela um pouco mais em destaque, não foi para ninguém – e muito menos para nós – um colocar-se em evidência: era simplesmente a alegria de poder acolher ainda mais o vento, disponíveis a um serviço mais intenso. O sim sacerdotal é a continuação da escolha de tornar-se uma vela pronta a acolher os desafios da comunidade, disponível a viver a bondade ensinada por Jesus, preparada para desdobrar-se por quem tem mais dificuldade. Se não fosse assim, para que serviriam as nossas velas içadas? A nossa felicidade não é nossa, é de todos, é uma emoção permanente que de agora em diante queremos levar ao altar, para que as nossas velas, os nossos sins sejam contagiantes.

O que significa oferecer a vida ao Senhor?

Oferecer-se ao Senhor deveria ser a normalidade de quem encontrou Jesus. Uma vez que o encontramos, não podemos fazer nada além de estar com Ele. É como quem encontra o amor da sua vida: está disposto a fazer de tudo para estar com ele ou com ela… Mas devemos aprender a inverter o nosso ponto de vista: não somos nós que oferecemos a nossa vida ao Senhor, mas é Jesus que se doa a cada um de nós, sem nenhum se e sem nenhum mas, sem condições, gratuitamente. Ele nos diz isso na Palavra de Deus, continua dizendo em cada momento da nossa vida, diz também quando nos faz ficar face a face com Ele e nos perdoa, mas repete sobretudo quando nos faz encontrar aqueles que Ele ama e que precisam do Seu amor.

Como é possível não doar-se a um amor assim? O exemplo a seguir continua sendo o de um bom pai e uma boa mãe que, mesmo com os seus defeitos, mesmo com todas as suas incapacidades, dão tudo de si para amar os filhos que Deus lhes deu. Os filhos, presentes do Pai aos quais é preciso doar-se. Por isso nos voltamos ao nosso Deus como a um pai, Pai Nosso… Oferecer a nossa vida ao Senhor significa amar profundamente a vida, com tudo de nós mesmos, com a grandeza dos nossos limites (porque é justamente aí que o Senhor age com mais força), sempre prontos a dar espaço aos outros.

Por que um jovem escolhe a vida consagrada?

Todos têm uma vida para consagrar a Deus; cada tipo de vela é um presente de Deus aos seus amados. Não existe uma vocação melhor que as outras. Todos podemos tentar viver o “absurdo” das bem-aventuranças, sem questioná-las, mas confiando, tentando vivê-las na nossa pele, na nossa vida, acreditando que é possível tornar-se bom, que é possível desarmar-se, que é possível desdobrar-se pelos outros…

Dizer esse sim na vida consagrada significa acreditar na esperança, mergulhar na arte de viver continuamente à presença de Deus, doando-se todo o tempo, dando tudo de si. Consagrar-se não é sentir-se melhor ou diferente dos outros e nem pensar que a própria vida é mais bonita ou mais importante. Consagrar-se é estar disponível para preencher-se não de si mesmo, mas do vento do Espírito, para ser um encorajamento contínuo, para fazer que as pessoas tenham vontade de levantar âncoras, de partir, de içar as próprias velas. A consagração, assim, se mistura com a vida do mundo e se torna fermento para um caminho que é proposto a todos.




O que significa viver uma Igreja misericordiosa?


Significa ter misericórdia das nossas fragilidades e viver a misericórdia entre nós em primeiro lugar, sem esquecer que a nossa comunidade, a nossa Igreja não pode deixar para lá o “Vejam como se querem bem” e o “Vinde e vede”: não podemos ser misericordiosos com quem não conhecemos e depois levantar barreiras, levantar verdadeiros muros dentro das nossas comunidades. A inveja, o orgulho e a dureza de coração não podem jamais nos impedir de desdobrar nossas velas e de abri-las a serviço do outro e de Deus. As pessoas percebem, já perceberam, mas a Igreja é Jesus e é feita de pessoas que podem continuamente se converter à sua Presença.

Em uma Igreja misericordiosa não se pode ter medo de reconhecer que o outro é melhor do que eu e que eu posso contribuir para a plena realização do seu sim. Quando vemos a vela do nosso irmão inflar-se com sopro do Espírito, se sentimos inveja significa que já baixamos a nossa vela e estamos atrasando a viagem de toda a embarcação. Ao contrário, a bondade, o nos querermos bem e a estima mútua fortalecem as nossas velas e ajudam todos a ser mais cheios de Deus.

Hoje, que somos também sacerdotes, viver uma Igreja misericordiosa significa em primeiro lugar não querer ser servido, e sim servir, levando ao altar a beleza que ouvimos na Palavra de Deus, o Tudo que está no pão e no vinho que consagramos, a graça de poder reconciliar os filhos com o Pai que os ama, mas também viver o dia a dia de tudo o que se respira na vida de fraternidade, dos Arsenais, das casas e dos ambientes em que vivemos e agimos…

Assim, poder ajudar o outro a se reconciliar com Deus é a continuação daquilo que na nossa comunidade, na Igreja, é acolher as pessoas com a misericórdia com que Jesus as acolhe. É Ele que nos pede para acolher quem precisa dele, para oferecer uma nova possibilidade. Celebrar a eucaristia é a continuação do trabalho e da restituição de muitos amigos e companheiros de viagem que todos os dias permitem que milhares de pessoas, nos nossos Arsenais, se alimentem e se recuperem de qualquer situação degradante. Batizar uma criança ou um adulto é a continuação de uma família que acolhe e que tenta escolher a bondade que desarma o ódio e o egoísmo, demonstrando que existe um caminho diferente, que leva ao outro e a Deus, ao sentido da vida.

Lorenzo, Simone e Andrea
SERMIG - Fraternidade da Esperança


 Veja algumas fotos da primeira Missa celebrada no Arsenal da Esperança no dia 14.11.2015
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Fotos de José Luiz Altieri Campos e Fábio José Pereira Lima