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Silêncio e Adoração. O Arsenal nos treina a fazer do nosso coração um lugar de silêncio...

clique para ampliarHoje há uma dramática falta de hábito ao silêncio. Tentamos preencher o silêncio como se preenche um vazio. Essa é a causa principal de muitas vezes nos sentirmos quebrados em pedacinhos e de não conseguirmos enxergar muitas coisas.

Redescobrir o silêncio quer dizer reencontrar o espaço para olhar dentro de nós mesmos e para descobrir ou redescobrir a nossa pessoa.

Usamos como desculpa a falta de lugares silenciosos; mas estar em silêncio é principalmente uma dimensão interior, é recuperar aquele espaço interior em que é possível sentir-se em unidade consigo mesmo, fazendo a mente descer ao coração. O silêncio da oração não é físico, mas espiritual.

clique para ampliarSe somos fortemente habitados por Deus, renascendo no Espírito dia após dia, superamos as divisões interiores que nos marcaram, recuperando o coração ‒ou seja, a unidade ‒ da nossa vida. O caminho do silêncio é redescobrir que somos habitados por Deus mesmo tendo dentro de nós coisas boas e coisas ruins, luz e sombras. O caminho do silêncio começa com a nossa vontade de recuperar a nós mesmos e de recuperar a presença de Deus em nós.

Nesse caminho nós enfrentamos o nosso orgulho, que tenta nos fazer sentir autossuficientes em relação a Deus. O orgulho nos torna presunçosos, nos impede de nos abandonarmos a Deus e nos faz viver tentando levar Deus para onde queremos. Fazer silêncio é esvaziar-se da presunção de querer levar Deus para onde nós queremos e começar a ir para onde Ele quer. Orgulho e presunção são inimigos do silêncio. A verdadeira liberdade é sair do nosso eu.

Só na dimensão do silêncio, que é presença de Deus em nós, reencontramos a paz, recuperando a verdadeira vida que está em nós, e que é a vida do Espírito. Mas no silêncio reencontramos também a dimensão do mundo, porque estar no coração do mundo como Cristo não é gritar ou fazer, e sim recuperar uma presença que nos leva ao centro das coisas, lá onde Cristo está. O silêncio preenchido por Deus abre o nosso coração e nos torna acolhedores para com o outro, por meio do diálogo com Deus em nós. Está escrito no livro do profeta Oseias: “Pois, agora, eu é que vou seduzi-la, levando-a para o deserto e falando-lhe ao coração” (Os 2,16): na linguagem bíblica, o deserto é o lugar onde nos encontramos com Deus. Hoje existe uma evidente dificuldade em deixar-se ir à experiência do silêncio.

clique para ampliarA vida do Arsenal é um treinamento não a isolar-se, mas a fazer do nosso coração um lugar de silêncio, de presença e de diálogo com Deus. O nosso desafio é levar um sinal da presença de Deus ao mundo, recuperando-a em primeiro lugar na nossa vida, por meio das mil pequenas solidões de cada dia. Cada vez que em um encontro com o outro ‒ com o pobre, com o jovem… ‒ conseguimos recuperar a dimensão interior da presença de Deus, mostramos um acolhimento que não é mais o nosso, mas que é, em vez disso, um canal da presença de Deus em nós.

O silêncio é a sala principal da oração. A adoração é a plenitude da oração porque é o silêncio que se faz Deus na presença do Pão Eucarístico. A oração das orações é adorar, ou seja, estar diante de Jesus olhando-o e deixando-se olhar, amando-o e deixando-se amar, em uma experiência de amor que é um olhar que penetra até o fundo, que nos devolve a nós mesmos e que nos coloca diante do tudo da nossa vida. É uma oração que deixa de lado as palavras e que em apenas um olhar reconhece que Deus é o Senhor e que nós somos criaturas. Reconhecer Deus como o Senhor da nossa vida leva ao abandono a Ele: “Você me guia e eu O sigo”.

clique para ampliarNa adoração recolocamos juntos os pedaços da nossa vida, e uma das coisas mais difíceis é recuperar a consciência de que somos criaturas: nós somos Seus amigos, mas somos Suas criaturas; precisamos saber estar no lugar certo diante de Jesus, que é nosso amigo, mas que continua sendo Filho de Deus, Senhor e mestre da nossa vida.

Um dos primeiros passos que devemos dar é nos reconhecer pecadores, assumir a nossa presunção e assumir que somos indignos diante de Deus. Isso marca também a experiência dos santos, porque, quanto mais estamos em contato com Deus, mais nos tornamos sensíveis à Sua presença e, consequentemente, mais vemos a escuridão de quando estamos longe Dele. Quando nos arrependemos, outro movimento do coração que acompanha isso é a gratidão, o louvor.

A adoração pode se tornar um estado de ânimo que nos acompanha mesmo quando não estamos fisicamente diante da Eucaristia, pode se tornar um hábito que nos acompanha cada vez que procuramos intimamente estar à presença de Deus. Porém, é bom começar um caminho de silêncio a partir da Igreja, fazendo da adoração o prolongamento da Missa, que nos ajuda a recuperar a presença de Deus fisicamente em nós como tabernáculos viventes depois de termos recebido Cristo por meio do Seu corpo e às vezes também por meio do Seu sangue.

clique para ampliarNa adoração renovamos no nosso coração o mistério da redenção e da salvação, renovamos os laços que nos unem a Cristo e, com Ele, ao plano da salvação do Pai. Não há nenhuma oração cristã que se reduza só ao plano íntimo: estamos sempre imersos no plano de salvação de Deus. Toda oração cristã é trinitária: com Cristo no coração do mundo aderimos ao plano de salvação do Pai porque o Espírito reza em nós.

Outra grande inimiga do silêncio é a nossa cabeça: os pensamentos, as distrações… Mas não devemos ter raiva deles, pois isso nos fará perder a paz e afastar o Espírito que grita em nós. Devemos recuperar continuamente a paz sabendo recomeçar cada vez do início sem medo. Afinal, no Evangelho Jesus nos diz que no campo onde está plantando o trigo cresce também o joio, e que não é bom arrancá-lo porque corremos o risco de arrancar o trigo junto com ele.

Devemos usar poucas palavras, porque elas se sobrepõem à imagem de Jesus. Podemos usar trechos do Evangelho que surgem no silêncio. É o Espírito que reza em nós, e só temos que nos oferecer como instrumentos diante de Deus. Devemos nos deixar guiar, porque a adoração, assim como o encontro de amor entre um homem e uma mulher, é algo que o Espírito cria cada vez de um modo novo, por meio de nós. Devemos ouvir a nós mesmos, para que cada momento da adoração seja a expressão mais próxima do amor do Pai e que nos faça sentir mais o Seu amor. E não devemos nos assustar quando sentirmos que o encontro se tornou pesado, pois também no amor isso acontece: o amor não é sempre fácil nem entre duas pessoas, imaginem então quando nós, criaturas, nos colocamos diante de Deus! Mas Deus nos disse que é possível; por isso, não precisamos nos assustar.

Por fim, a adoração nos leva à vida cotidiana, e também ali podemos e devemos nos esforçar para levar a presença de Deus.

O importante é entrar em um método e nos treinar a segui-lo. O método não é uma lista de tarefas a seguir ‒ “Passo 1, passo 2… Passo 10” ‒ , e sim simplesmente decidir dedicar um tempo a isso todos os dias, mesmo quando estamos cansados ou quando temos vontade de deixar para lá. Com simplicidade e um pouco de ironia em relação a nós mesmos, podemos dizer: “Realmente somos criaturas, não sabemos nem mesmo estar diante de Você!”, com a confiança de que é o Espírito que devagar reza dentro de nós e modela a nossa matéria-prima.

E chegará o momento em que nós desejaremos passar muito tempo com Deus e seremos chamados a mais do que isso: a levar a adoração à nossa vida. Eu lhes asseguro que isso é possível!

Adaptado da palestra Silêncio e Adoração, de Rosanna Tabasso (SERMIG - Fraternidade da Esperança)