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Ernesto Olivero: “Na Bíblia encontro tudo o que procuro, por isso a tenho sempre comigo”...

Abri a Bíblia pela primeira vez depois de um encontro com Giorgio La Pira*. Naquela época ainda não o conhecia pessoalmente, mas ele me fez vibrar citando algumas palavras do profeta Isaías, que eu nunca tinha escutado antes.

Peguei a Bíblia e procurei aquele versículo, que anos depois entraria na história do Arsenal da Paz de Turim: “Quebrarão as suas espadas, transformando-as em relhas, e as suas lanças, a fim de fazerem podadeiras. Uma nação não levantará a espada contra a outra, e nem se aprenderá mais a fazer guerra” (Isaías 2, 4). O coração me sugeriu que o Senhor me “usaria” para alguma coisa desse tipo, porque aquelas palavras entraram dentro de mim e eu sentia que o pensamento daquele Deus de quem eu lia as palavras era lógico. Deus sempre foi lógico para mim. Não um Deus envolto em nuvens, misterioso, mas lógico: “Ama”.

Ama o teu irmão. O preso, o faminto... Nunca uma exortação vaga, sempre indicações precisas. Desde jovem me parecia natural tê-Lo encontrado. Se não fosse aquele episódio com La Pira, não conheceria diretamente a Bíblia. Decidi naquele momento lê-la da primeira página até a última, do A ao Z, cada palavra. No começo, me foi quase impossível conseguir ler em seguida um capítulo inteiro. Para a primeira leitura completa, acredito que levei três ou quatro anos.

Depois, impus a mim mesmo um método: quero lê-la inteira uma vez por ano. Até que, finalmente, perguntei a mim mesmo: por que não lê-la duas, três, quatro, seis vezes por ano? Fiquei fascinado por ela. Ela contém a história da humanidade, a história de Deus encarnada na nossa. Leio e escuto, leio e me questiono, leio e rezo, e então a confronto com a minha vida, procuro indicações e conselhos preciosos sobre como enfrentar os problemas e as dificuldades que encontro. Eu me dei conta tantas e tantas vezes que, quando tenho mesmo um problema e estou pronto a escutar com abandono, as Escrituras me oferecem uma chave para enfrentá-lo. É o livro mais concreto que conheço. Tem um fascínio misterioso, mas não é um livro mágico; é um livro sagrado, do qual precisamos nos aproximar “tirando as sandálias”, ou seja, com profunda humildade de coração, de mente, de comportamento.

Agora trago sempre a Bíblia comigo. Ela me acompanha dia e noite, a pé, no carro ou no avião. Quando vou encontrar o Papa ou quando estou com crianças de rua. Eu entendi que trazer a Bíblia comigo é como estar acompanhado pela Eucaristia. As Sagradas Escrituras e a Eucaristia me colocam sempre na presença de Deus. Como explicar as Escrituras aos outros? Estou convencido de que é necessário em primeiro lugar vivê-la. Os meus filhos, naturais e espirituais, talvez tenham sido atraídos pelo fato de que eu me esforçava para levá-la a sério. Em certo sentido, a primeira Bíblia sou eu quando, com a minha vida e com as coisas que penso e faço, me torno o livro que conta as maravilhas de Deus. Quando me torno confiável e me abandono a Deus para perguntar-lhe: “Pai, o que devo fazer?”, as Escrituras se tornam para mim uma indicação, uma palavra de vida. Tenho confiança em Deus que é Pai. Quantas vezes Ele me salvou! Quantas vezes me sugeriu o que eu devia dizer!

Li a Bíblia uma centena de vezes, mas não quero me tornar um especialista. Quero ser sempre mais um apaixonado por Deus e a leitura da sua Palavra me segue.


Ernesto Olivero

* Prefeito “santo” de Florença que governou a cidade de 1951 a 1964 e que entendia e praticava a política como amor pela cidade.