Sermig

Um estilo que contagia o mundo

Hoje, 24 de maio, é o aniversário de Ernesto Olivero e da nossa comunidade – o SERMIG (Servizio Missionario Giovani), que ele e a esposa Maria fundaram em 1964. Celebramos esse aniversário compartilhando a nossa alegria pelo presente do primeiro encontro com o Papa Francisco, no sábado passado, dia 18 de maio, em Roma, na Vigília de Pentecostes com os movimentos eclesiais.

18 de maio de 2013, Roma, Praça de São Pedro. Estou a poucos metros do Santo Padre. Volto à lembrança do dia da sua eleição. 13 de março de 2013, 19 horas. O meu corpo está trêmulo. Somos feitos de Espírito, alma e corpo: na espera do “Habemus Papam” o corpo me adverte do entusiasmo do Espírito, que se une à trepidação do coração, onde Ele habita.

Fisicamente estou na Terra Santa, mas através das imagens televisivas estou na Praça de São Pedro. Melhor, estou diante da Loggia onde aparecerá o novo Papa. Finalmente o Cardeal Tauran. Um homem de Deus. O anúncio será ainda mais significativo pronunciado por sua voz de enfermo, que me entra no coração. No campo de Deus não há sãos ou doentes, há somente filhos de Deus. Diz um nome: Francisco. O meu corpo relaxa, respira com o Espírito, pareço estar entrando em outra dimensão. Não conheço ainda o rosto do novo Papa, mas com esse nome já sei que o Espírito nos deu um presente. E lá está ele. Seu rosto confirma a emoção que tenho em mim. Entendo que no mundo está se abrindo uma nova janela para a humanidade. Por ali entrará o vento do Espírito, que traz a fé.

18 de maio de 2013, 18 horas. Vejo o Santo Padre, não está longe de onde eu me encontro. Voltam à minha mente algumas das suas frases desses dois meses de pontificado. “Ah, como eu gostaria de uma Igreja pobre para os pobres.” Assemelha-se a uma frase da nossa Regra: “Todos os dias experimentemos que a Providência responde ao nosso grito de ajuda pelos meios materiais que não temos, pela ajuda aos pobres que se dirigem a nós...”. E ainda o Papa: “Não nos esqueçamos nunca que o verdadeiro poder é o serviço. É necessário cuidar de cada pessoa, especialmente das crianças, dos idosos, daqueles que são mais frágeis e que frequentemente encontram-se na periferia dos nossos corações”. “Não devemos ter medo da bondade nem do carinho.” Penso na frase em letras garrafais pintada em um muro do nosso Arsenal da Paz em Turim: “A bondade desarma”... Mamma mia! Desde sua eleição, o Papa Francisco fez o mundo redescobrir a força, a atualidade e a beleza do Evangelho. Nos faz degustá-lo não como leitores, mas como testemunhas. As palavras que diz chegam direto ao coração, como se falasse a alguém pessoalmente.


18 de maio de 2013, após as 19 horas. Agora tenho o Santo Padre às portas do coração. Estou com ele. Mas não eu: eu sou um “desaparecido”, alguém que leva a dor de milhares e milhares de pessoas de 140 países do mundo que ajudamos. Levo comigo crianças-soldados. As crianças com deficiência muçulmanas e cristãs do nosso Arsenal na Jordânia. As milhares de pessoas que vivem na rua e encontram refúgio e uma nova vida nos nossos Arsenais na Itália e no Brasil. O desconforto, a perda, o rosto de tantos e tantos jovens que nos pedem esperança. As nossas Fraternidades em Turim, São Paulo e Madaba. Não há Ernesto Olivero, ali, diante do Papa. Estão todos. Estão todos os meus amigos, os doentes que vêm até nós para uma oração, as pessoas que têm dificuldade em viver. Somente eles devem estar ali. Somente o nosso amor a Jesus deve estar ali.

Gostaria de dar um presente ao Papa, mas nas mãos tenho somente a Bíblia. Dou-lhe o meu marca-livro, aquele com o rosto de Dom Luciano Mendes de Almeida, o bispo brasileiro que cruzou o nosso caminho. A sua profundidade e o seu exemplo nos acompanharam por quase vinte anos. Um Francisco de Assis com a cabeça de Platão, de tão grande que era o seu saber e humilde a sua vida. Deixo que aquele marca-livro me apresente ao Papa, com o rosto – para mim – de um santo. Falecido em 27 de agosto de 2006, sua causa de beatificação está em curso. E também o Papa prontamente enfatiza: “É um bispo santo!”. A familiaridade do Papa Francisco me encoraja, me faz dizer aquilo que tenho no coração, somente um pouco daquilo que tenho no coração: tudo seria muito. Digo sobre a Nossa Senhora que vem da Rússia, a Nossa Senhora que tem três mãos, que intitulamos de “Maria Mãe dos Jovens”: para que os defenda, os proteja do mal, cubra com o seu manto a santidade, a desenvoltura, a coragem semeadas neles. Maria Mãe também das mães, das avós, das crianças, me diz o Santo Padre...

Me sai do coração: “Padre Santo, te quero bem!”. Conto a ele sobre a “Carta à consciência” que escrevi, endereçada a toda a humanidade. Porque a consciência está em todos: a consciência do bem que recusa o mal, a consciência de todos trabalharem menos para que todos possam trabalhar, a consciência que não nos deixa bater a porta na cara de um faminto que bate, que nos faz voltar ao “tempo que é de Deus” e não ao dos meus compromissos, que nos tira dos lábios o “meu” e o transforma em “nosso”. O Papa escuta e diz sim com os olhos. Digo a ele sobre o desejo de ser ele o primeiro a ter a “Carta à consciência”: entregaremos aos jovens, que são os nossos mensageiros a todos os jovens do mundo. Entregaremos ao presidente Napolitano, um jovem ancião. Depois o saúdo. Sigo o meu coração: abraço e beijo o Santo Padre e também ele me abraça e me beija! Um homem de Deus, que se sente verdadeiramente irmão e propõe um estilo fraterno, que pode contagiar com o seu estilo o mundo inteiro e fazê-lo tornar-se uma verdadeira comunidade.

Penso: que bonito seria se também o Vaticano se tornasse aos olhos do mundo uma comunidade! Por que não esperar? Cruzo o seu olhar, sinto a sua placidez que transmite um Evangelho vivido no profundo, que é luta interior, amor, misericórdia. De hoje em diante rezarei mais para que todos se tornem dignos das palavras que diz este novo Papa bom: “Se Deus não perdoasse tudo, o mundo não existiria”, “É importante construir uma casa, mas são mais importantes os homens que a constroem... Se morre um homem, morre um pedaço da humanidade, devemos fazer de tudo para que ninguém morra por causa do trabalho...”. São também palavras suas. Palavras do Evangelho que soam como novas. Rezarei para que todos nos tornemos o seu eco. Para que esta nova janela aberta para o mundo não volte a se fechar.

18 de maio de 2013, 21 horas. Sinto-me um pouco diferente. Pareceu-me um segundo, mas não foi um segundo esse encontro com o Santo Padre. Me fará companhia. Me fará sentir saudade do próximo encontro que virá. A oração se tornará mais feroz para que mereçamos este Papa de nome Francisco que nos faz degustar o Evangelho. Que nos faz dizer que é verdade. Que nos faz dizer que é possível

Ernesto Olivero 
Jornal “Avvenire” (21/05/2013)