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Abrir a todos as portas da esperança

Se eu pensar em quantas oportunidades de fazer o bem temos no decorrer das nossas vidas, fico sem fôlego! Cada um de nós pode começar consigo mesmo, se alimentando bem, cuidando de si mesmo, estudando para descobrir sua vocação, mas, quase que naturalmente, este bem se alarga às pessoas que estão perto de nós, aos filhos, aos parentes mais próximos, aos amigos... 

É muito mesmo o bem que podemos fazer! Mas ainda não é suficiente... Para estar bem, para estar em paz com a nossa consciência, o bem pode e deve se propagar em outras formas, em outras áreas, com outras pessoas, fazendo parte de uma comunidade que trabalha e cria benefícios contínuos, para qualquer homem e mulher. O homem é construtor da sociedade, e se os justos não falam, não atuam, não se pronunciam, serão outros a construir a sociedade. Este é um dos segredos da felicidade: não posso ser feliz sozinho, porque esse tipo de felicidade é mentir a si mesmo.

Domingo à noite participei do velório do Padre Roberto Gonçalves, que foi pároco da Paróquia Nossa Senhora Aparecida dos Ferroviários, homem que doou a vida pela comunidade e pelas crianças que ninguém queria ajudar. O Gianfranco e eu conseguimos voltar para o Arsenal somente às 23 horas. Na porta do pernoite do Arsenal estavam amontoadas mais de 50 pessoas, pedindo acolhida. Logo pensamos: “Deve ter acontecido alguma coisa... Porque os monitores ainda não abriram a acolhida?”. Na verdade, a porta do pernoite tinha sido aberta normalmente e todos os leitos já estavam ocupados. No total, 1.225 pessoas, naquele momento, estavam dormindo seguros na tranquilidade que o Arsenal da Esperança proporciona todas as noites. Setenta e cinco pessoas a mais do que o convênio com a Prefeitura cobre.

O que está acontecendo? Ainda o frio nem chegou de verdade e a procura de vagas já está aumentando tanto assim? Mas será que é verdade que os que procuram um lugar para dormir nas noites frias de São Paulo aumentaram? Será que é verdade aquilo que muitos moradores da casa dizem, que preferem dormir na rua em vez de ser levados a qualquer albergue que não seja o Arsenal? Eu não sei se isso é verdade, mas sei que, quando vi toda aquela humanidade procurando ajuda às 11 horas da noite, naquele momento continuei a sonhar! A sonhar para além do Arsenal! Porque podemos oferecer a essas pessoas muito mais do que o Arsenal para enfrentar a luta contra si mesmos e contra a sociedade. Podemos oferecer uma verdadeira integração de serviços a partir das nossas comunidades.

Sonhei que, no inverno que está chegando, ninguém vai precisar dormir em albergues ou nas calçadas de São Paulo. Sonhei que cada paróquia, cada colégio, cada igreja, cada grupo de jovens, cada partido político, cada grupo teatral, cada universidade, cada associação, cada condomínio fechado, cada bairro pudesse abrir um quartinho para acolher uma ou mais pessoas, para se abrir à solidariedade. Sonho que jovens, paroquianos, universitários, políticos, condôminos, todos, voluntariamente, se coloquem à disposição para auxiliar na organização deste quartinho e de seus hóspedes.

Eu sei que se trata de um desafio grande, mas quem falou que a responsabilidade é apenas da Prefeitura e dos órgãos “competentes”? Quem tem mais competência do que uma comunidade em matéria de solidariedade? É um sonho que sonho de olhos abertos, sabendo que é difícil, mas que é possível, realizável.

Para aquele que você acolhe com certeza será uma festa! Jesus nos pede que convidemos para nossas festas os quem mais precisam: “Quando ofereceres um almoço ou jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes podem te convidar por sua vez, e isto já será a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos! Então serás feliz, pois estes não têm como te retribuir! Receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14, 12-14).

Abrindo os nossos “quartinhos da esperança”, abriremos as portas das nossas comunidades aos mais necessitados. Com certeza acolheremos pessoas que não têm nada e não querem ter nada, estropiados, coxos, rejeitados que continuam errando atraídos pelo vício e que, mesmo ajudados, não possuem a força de enxergar o bem que lhes está sendo oferecido.

Vamos abrir muitos “quartinhos da esperança” nesta cidade, sem esperar palmas ou prêmios, mas somente o “prêmio” da consciência livre de quem está tentando.

Lorenzo Nacheli
Fraternidade da Esperança