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RECONHECIMENTO

Mais uma página da Regra da Fraternidade da Esperança comentada por Rosanna Tabasso. O tema é o “Reconhecimento”: agradecer é saber que Deus nunca nos abandona, é entrar na mentalidade do Evangelho.

Somos o que comemos, somos o que vestimos, o que aprendemos, somos as experiências que vivemos, as pessoas que encontramos, mas não somos só isso. Somos principalmente aquilo pelo que agradecemos. Porque quando agradecemos por alguma coisa ou por alguém, nos mostramos conscientes de ter recebido e, consequentemente, de ter enriquecido, percebemos que tudo o que é vivido se torna parte de nós, tanto as coisas pequenas quanto as grandes. 

O vazio de sentido que frequentemente sentimos no final de um dia – para que serve aquilo que fiz, não terminei nada, os problemas são sempre os mesmos – nasce da falta do hábito de agradecer.

De fato, durante todo o dia e também à noite – por exemplo, quando não conseguimos dormir – a primeira palavra que deveria vir à mente ou aos lábios é OBRIGADO: obrigado porque Deus me ama e eu o amo, obrigado pelas pessoas que tenho por perto, obrigado porque recebi ajuda e pude ajudar, obrigado porque compreendi uma coisa nova, obrigado porque encontrei uma pessoa, obrigado porque fui perdoado, obrigado porque perdoei, obrigado pelo que recebi e obrigado pelo que pude “restituir”.

Em vez de preencher os momentos vazios com intermináveis “rosários” de agradecimentos, nós deixamos que o vazio se preencha com sugestões externas e nos deixamos invadir por mensagens televisivas, por slogans publicitários, por jingles que entram na cabeça e nos fazem pensar no carro de último tipo, na roupa da última moda, no celular que acabou de sair no mercado... E desde cedo, em vez de repetir “obrigado”, ficamos cantarolando a nova música das paradas de sucesso.

Coisas para possuir, passatempos para não pensar, vazios para preencher, vida não vivida. A memória é feita para ser preenchida: se não a preenchemos nós, ela se preenche sozinha, se não a educamos nós, ela própria se educa, correndo o risco de tornar-se superficial, vazia e infeliz. Não é mais a consciência que tece a nossa vida em tramas fortes, não é mais a mentalidade do Evangelho que permeia a nossa memória. Voltar a preencher-se de reconhecimento é entrar na mentalidade evangélica, na mentalidade eucarística de agradecer, de bendizer, isto é, tornar-se mediador das bênçãos de Deus.

Nestes dias uma amiga que vive em meio a graves problemas me dizia: “Sabe, não vejo o fim dos problemas, mas por dentro estou serena, estou feliz e quase sinto vergonha disso. Digo a mim mesma que não sou normal, que não tenho consciência”. Não – digo eu – você simplesmente entrou na via dos pequenos e dos pobres da Escritura, daqueles que agradecem por todas as coisas porque sabem que Deus não os abandona nunca, que bendizem a Deus por todas as coisas porque colocam sua confiança apenas nele. Vivendo assim, você se torna cheia de alegria, serena como uma criancinha nos braços da mãe. Quando agradecemos por tudo e por todos nossa visão muda, e onde havia tristeza agora há alegria, onde havia desespero agora há esperança, onde havia cansaço agora há leveza.

Penso na cena final do filme “Homens e Deuses”. Os monges de Tibhirine esperam o seu fim reunidos todos juntos, na mesa. Abrem uma boa garrafa de vinho, se vestem como para uma festa: ter aprendido a agradecer a Deus por qualquer coisa faz do fim deles um novo início.

Também Jesus, antes de oferecer-se, reúne os seus para a ceia pascal, agradece pelo pão e pelo vinho, antes de tornar-se ele mesmo o pão e o vinho do sacrifício. O dom extremo de si se torna um agradecimento a Deus que é vida sempre, até no sofrimento e na morte.

Rosanna Tabasso SERMIG - Fraternidade da Esperança