Sermig

Regra do Sim


Relendo a nossa história

Estou no Brasil com Dom Luciano Mendes de Almeida, bispo de Mariana. É um encontro guiado por Deus. Dom Luciano é um homem importante na minha vida e, com imenso encantamento, acredito que eu também sou importante na vida dele. O encontro dessa vez tem um objetivo. Quero pedir que ele escreva a Regra do Sermig, que me pedem há muito tempo e de muitas partes. Ele me ouve com atenção e prontamente me responde: “Não, a Regra é escrita pelo fundador! O Senhor deu a você o dom desse carisma. Você deve escrevê-la”.
Estou emocionado, não sei o que serei capaz de fazer, mas aceito pensando no bem que recebi cada vez que escutei os conselhos dele.
Procuro a chave do nosso caminho, das nossas atividades, da nossa fidelidade desses anos. Não é difícil. A chave é Jesus, o encontro fundamental de minha vida, o sentido de tudo, sempre. Desde o momento do primeiro encontro, a sua Palavra se tornou uma palavra para mim, uma palavra difícil, mas não impossível de viver. Quando Ele diz: “Se não voltarem a ser crianças...” é para mim, e acredito. Quando nos ensina a rezar: “Pai Nosso”, creio verdadeiramente que todos nós somos filhos de Deus e irmãos entre nós.
Quando recomenda: “Orem incessantemente”, esse incessantemente se tornou parte da minha respiração. Ou se diz: “Amai os inimigos”, não considero essas palavras uma simples exortação, mas uma ordem para mim.
Compreendi que me apaixonei por Jesus. Não construí sobre a areia, construí com Ele. Essa tem sido a minha vida, com altos e baixos, como a vida de todos, mas o meu amor a Jesus permaneceu constante. Todas as coisas que me aconteceram, eu não enfrentei de acordo com a minha mentalidade, mas de acordo com Jesus, que eu havia encontrado.
Com essa chave comecei a oração e a reflexão, e deixei a mente e o coração livres para escrever esta “Regra não regra”.
Regra que nasce de uma história. Nascemos em 24 de maio de 1964, uma época de violenta contestação. Uma época em que, para ser verdadeiramente cristão, era preciso reivindicar, condenar, escolher um lado de acordo com uma ideologia. Mas nós queríamos ficar “ligados a Jesus”, o Filho de Deus que tem palavras de vida eterna, Aquele que nos diz: “Os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”, Aquele que nos assegura: “As forças do mal não prevalecerão”.
Permanecemos unidos a Ele para lutar contra a fome, contra as injustiças que causam a miséria; e, sobretudo, para lutar contra o pecado em todas as suas expressões de orgulho e de egoísmo, de ódio e de violência.
Começou assim um caminho que colocou à prova nós mesmos, o nosso tempo, a nossa inteligência, os nossos bens materiais e espirituais.
Sofrimento e provas indizíveis nos fizeram descobrir o silêncio, a força de estarmos desarmados. Procuramos entender o que significa amar os inimigos e percebemos que, às vezes, é ainda mais difícil amar aqueles que deveriam ser amigos. Naquele momento, sentimos toda a nossa fragilidade. Colocamos o nosso ser jovens em primeiro lugar no projeto de vida que estava ganhando corpo, para nos prepararmos e nos transformarmos em comunidade. Jesus se tornou o nosso Tudo, o nosso Jesus. Nasceu assim o desejo de estar com os jovens, por eles. E com eles pelos mais pobres, não apenas com os que estão longe, mas com os pobres da nossa casa: italianos e estrangeiros, presos e vítimas do tráfico, doentes e idosos, refugiados políticos e sem-teto, mães solteiras com os seus filhos, crianças e jovens com deficiência...
Esses amigos nos educaram a compreender que permanecendo unidos a Jesus, como o ramo à videira, nada é impossível.
A pobreza de meios e de recursos na qual nos encontrávamos na época da chegada do Arsenal, no dia 2 de agosto de 1983, em Turim, nos ajudou a descobrir que a desproporção é o terreno da Providência. E em tudo experimentamos o seu sustento. Com o tempo, começamos a pensar que devíamos dar a vida com um sim total e sem condições. Com a determinação de um maratonista, a confiança de um sonhador, a simplicidade sorridente de uma criança.
Assim, nos descobrimos uma fraternidade no seio da Igreja – a Fraternidade da Esperança – sem abandonar o nome das nossas origens, Sermig, agora repleto de sentido: Serviço Missionário Jovem. Em todos esses anos, Maria nos envolveu com sua ternura.
Foi Ela que nos levou até o seu filho Jesus, Senhor da nossa vida, nos revelando a paternidade de Deus e a força do Espírito Santo.
É Maria que agora me guia a traçar as linhas de uma Regra de vida que possa dar solidez e futuro a esta aventura, uma Regra que convide a pronunciar com alegria, da mesma forma que Ela: “Sim, Senhor”. É a Ela que dedico esta aventura, para que Ela a proteja e a ajude a ser sempre e para sempre somente obra de Deus.

São Paulo, 6 de agosto de 1996.
Festa da Transfiguração do Senhor