Sermig

A filosofia desta aventura

Um dia, com o filósofo Norberto Bobbio (foto), discutia-se sobre quem crê e quem não crê. Falei-lhe que essa definição de quem crê e quem não crê não tem muito valor, tem mais valor se formos homens de boa vontade ou não de boa vontade. Bobbio me perguntou: “E que diferença existe entre os dois?”.

Ernesto Olivero e o filosofo Norberto Bobbio (ruínas do Arsenal Militar de Turim)Respondi: “Os homens de boa vontade são aqueles que por suas próprias motivações religiosas, filantrópicas e filosóficas se ocupam dos problemas dos outros”.  

“E os outros, quem são?” “São aqueles que, pelas mesmas razões, continuam se ocupando de si mesmos.” Sorriu e concordou com a cabeça: “Gosto dessa definição”. O que nos faz iguais é que Deus ama, da mesma maneira, o crente ou o não crente. Não concede privilégios ou favores para ninguém.

Conheci Deus quando era criança, graças à fé e à religiosidade de minha mãe, parecia-me normal conversar com Ele. O encontro com Ele tornou-se um relacionamento de amor, levando-me a me ocupar com paixão dos outros, sem nunca interromper o diálogo com Ele.

Depois de muitos anos, ainda é assim. Não me tornei ainda totalmente pobre, manso, puro, pacífico; não consigo sempre oferecer a outra face quando alguém me faz mal, mas permaneço com Deus, sinto-me amado por Ele e o amo com todo o meu ser. E com Deus permaneci também na aventura que encontrei para viver.

O SERMIG nasceu na década de 1960, uma época de grandes sonhos e violentas contestações. Desde o começo, acreditamos que era possível caminhar com qualquer pessoa que tivesse o verdadeiro desejo de um mundo mais justo. A Regra do SERMIG finca as próprias raízes naqueles anos e na vida de moços e moças que, crescendo e permanecendo juntos, encontraram o sentido da vida em Jesus: reconheceram-se no seu mandamento do amor que inspirou todas as escolhas de suas vidas, tornando-se assim uma Fraternidade que nunca deixou de ter um coração aberto ao mundo.

A Regra nasceu da vida humilde, da miséria da vida real, que talvez quase não conhecêssemos: no acolhimento dos excluídos, na escuta do desesperado, na ajuda ao imigrante para que não se sinta estrangeiro na nossa terra, na mão estendida, para dar dignidade a um preso.
Penso que o espírito desta Regra pode inspirar a homens e mulheres de boa vontade, crentes de todas as religiões e “não crentes” que, apesar da diversidade, escolhem sonhar e depois realizar o que para muitos permanece uma utopia: o diferente compreendido, o outro como pessoa a ser amada, todos os homens como irmãos; palavras como infiel, inimigo, eu, meu... Canceladas pela bondade que desarma.

Algumas páginas podem inspirar homens e mulheres que desejam oferecer a própria vida pelos outros, porque são os valores compartilhados que aproximam as pessoas e fazem cair os preconceitos. A condição é aceitar, respeitar, amar.
Para tentar viver o espírito que anima estas páginas, tivemos de derrubar numerosos muros que nos davam segurança e procuramos compartilhá-lo não somente com os “nossos”, mas também com os “outros”. Acolhendo o diferente, o preso, o intocável, o negro ou o branco, o jovem, o doente; encontrando homens e mulheres de boa vontade em toda parte, descobrimos que é possível caminhar juntos, mas a nossa linguagem tem que se tornar silêncio, para deixar falarem os fatos.

As páginas desta Regra são acompanhadas pelos desenhos simples e imediatos de Dom Luciano Mendes de Almeida, um gigante da história que conheceu de perto a nossa obra, apoiando-a e estimulando-a. Assim o Cardeal Carlo Maria Martini comenta suas ilustrações: “Exprimem a sua grande sensibilidade: nelas se vê todo o homem, a sua riqueza e a sua humildade”.

Dom Luciano faleceu no dia 27 de agosto de 2006, sofrendo dores atrozes, sem queixar-se. Deixou esta terra rezando e repetindo: “Deus é bom”. Padre e bispo, homem de Deus no mundo, confirmou-nos que, se não nos desarmarmos, se não escolhermos a bondade como estilo de vida, o preconceito permanecerá aliado à indiferença. A sua amizade nos confirmou que a nossa história pertence à historia de Deus.

Ernesto Olivero