Sermig

ENFRENTAR AS FRONTEIRAS

Nesta semana, entre os dias 23 e 27 de setembro, aconteceu, em São Paulo, no Centro Universitário São Camilo, o 8º Congresso de Teologia da Comissão de Estudantes de Teologia de São Paulo (Cetesp). Tema do congresso: “Nova Evangelização: problemas de fronteira”.
Como SERMIG - Fraternidade da Esperança, no dia 25/09, tivemos a oportunidade de realizar uma das oficinas, com o título: “Cristãos 24 horas por dia”.
Depois da oficina, colocamos por escrito alguns dos conteúdos que partilhamos com os participantes...


Cada fronteira representa um limite, mas quando paramos em frente a esse limite, às suas dificuldades e complexidades, desperdiçamos o nosso tempo e já somos perdedores.
Se, ao contrário, fizermos de cada problema ou imprevisto uma oportunidade de crescimento, é provável que se abra algo novo em nós e na nossa vida. Temos que escolher o caminho da disponibilidade e apostar na esperança.

 



O nosso “eu”: a fronteira mais difícil diante de nós

É a fronteira do nosso "eu" que sempre quer emergir: o meu ponto de vista, a minha razão, as minhas coisas, a minha vida... Se não desatarmos esse "eu", tudo não passa de palavras, porque o outro, os outros, os problemas e as situações sempre serão filtrados pelas nossas ideias ou, mais simplesmente, pelo nosso humor. Tudo está de acordo comigo, com a minha realização. Faço se eu quiser, se eu sentir, se me gratificar, se não me custar muito sacrifício... O outro depende do meu “eu” e do meu humor. Se o “eu” for o centro, é fácil comunicar, não apenas com palavras, mas também com a nossa postura, que nos sentimos autossuficientes: eu não preciso de ninguém, basto a mim mesmo, em tudo. Outras vezes, esse egocentrismo se expressa também com a desconfiança, no recuar diante dos problemas e no sentir-me inadequado, o que me leva a não exprimir os meus dons e as minhas habilidades. Muita consideração de mim mesmo ou muita desconfiança de mim mesmo são dois lados da mesma moeda, dois aspectos do fechamento em si.

Superar a fronteira do “eu” significa colocar-me em discussão, esvaziar-me, abandonar-me e descobrir, até mesmo em minhas limitações, que me realizo como pessoa somente quando me abro, quando me doo, gratuitamente. O eu, o meu eu, se torna nós: é uma das frases que guia a Fraternidade da Esperança*, que faz dessa experiência de abertura um elemento essencial da formação de cada um que se aproxima e um elemento essencial da nossa formação permanente. Estamos na Fraternidade antes de tudo para nós mesmos, para nos reeducarmos durante toda a vida, para alargarmos o espaço de nossa tenda (Isaías 54, 2), para nos formarmos como pessoas, para entendermos a nós mesmos, para mudar.

Se eu limito o meu “eu”, outros podem encontrar o seu espaço ao meu lado e todos nos tornamos mais ricos; caso contrário, sufocamos e morremos. Sair de si mesmo é uma condição indispensável para viver: dar e receber amor enriquece a nossa vida. Se nos educamos a essa abertura, a nossa vida se expande e alcança áreas cada vez mais amplas. Primeiro, começamos a perceber o outro e, em seguida, descobrimos o amor.


O outro: mais uma fronteira para atravessar


Perceber o outro, ser capaz de reconhecê-lo ao meu lado, aprender a comunicar a mim mesmo sem esmagá-lo... É o primeiro passo. Temos que aprender a carregar os fardos uns dos outros (mais uma frase que guia a nossa Fraternidade). Antes de tudo, temos que carregar o peso da diversidade e da liberdade do outro. Seja quem for, pelo próprio fato de ser outro em relação a mim, o outro me limita. É preciso se confrontar com a diversidade do outro, conhecê-lo, não julgá-lo, compreendê-lo, aceitá-lo. É importante sabermos nos colocar no lugar do outro (do idoso, do deficiente, do doente, do jovem...) também nas pequenas coisas, para modificarmos as nossas atitudes, como a arrogância, a indiferença, o passo rápido demais... A etapa seguinte é não considerar o outro como um inimigo em potencial pela sua cultura diferente, pela cor da pele, pela religião diferente da minha, etc.

A chave do encontro com o outro é o amor, e o amor é a palavra menos retórica de todas. O amor não é a comoção de um momento. O amor, no sentido mais pleno, é alimentar o faminto, visitar o prisioneiro, acolher o estrangeiro... (Mateus 25, 35-39). Nós blasfemamos o amor quando não temos olhos para o prisioneiro, o estrangeiro, o doente, o homem sozinho... Nesse percurso, se nos abrimos à fronteira do outro, o problema dele, seja qual for, se torna meu, me interessa, me importa.

Há sempre duas maneiras de lidar com o problema do outro. Uma maneira que primeiro calcula as nossas próprias forças humanas, e outra maneira que, na sinceridade de coração, se pergunta se realmente quer ou não dar espaço para o outro, mesmo na desproporção de nossas forças. Qualquer problema que se coloca à nossa frente nos encontra despreparados. Temos que arriscar uma resposta... Para descobrir que a desproporção é o terreno da Providência.


O tempo e os jovens: as fronteiras de hoje

Trabalho, faculdade, cursos, cursinhos... Que tempo sobra para pensar? Para assimilar? Para construir relações significativas? “Somos uma sociedade que esqueceu a experiência de chorar, de ‘padecer com’: a globalização da indiferença tirou-nos a capacidade de chorar!” (Papa Francisco, Ilha de Lampedusa, 8 de julho de 2013). Não temos tempo para isso, a não ser, eventualmente, para fazer algumas horas de voluntariado (ou de pastoral) no fim de semana. Como podemos descobrir a felicidade, conhecer os problemas das pessoas, encontrar o sentido da vida e encontrar o amor se não procuramos viver como “cristãos 24 horas por dia”?

Essa pergunta, que deve ser dirigida também a tantas pessoas que escolheram doar a vida a Deus, exprime a condição de muitíssimos jovens do nosso tempo, talvez da maioria deles, que sentem um grande vazio de significado, entre outros motivos, porque não encontram exemplos de mestres verdadeiramente simples e autênticos e não encontram lugares, comunidades, paróquias e pastorais que vivam e ofereçam a possibilidade concreta de experimentar, de trabalhar, de participar do Reino de Deus em meio a nós.


Finalmente, temos diante de nós a fronteira da família humana


“Seja qual for sua condição de vida, pense em si e nos seus, mas torne-se incapaz de fechar-se no círculo estreito de sua pequena família. Adote de vez a família humana. Não se sinta estrangeiro em nenhuma parte do mundo. Seja um homem inserido entre os outros. Que nenhum problema de nenhum povo lhe seja indiferente. Vibre com as alegrias e esperanças de qualquer grupo humano. Adote como seus os sofrimentos e humilhações de seus irmãos de humanidade. Viva a escala mundial, ou, melhor ainda, a universal. Apague do seu vocabulário as palavras: inimigo, inimizade, ódio, ressentimento, rancor… Nos seus pensamentos, no seu desejo e nas suas ações, esforce-se por ser, e por sê-lo verdadeiramente, magnânimo!”. O espirito contido nessas palavras de Dom Hélder Câmara, escritas nos anos 60, continua sendo válido também hoje, para enfrentar os problemas de fronteira atuais.

O mundo é o meu próximo, não porque estamos na era da globalização, mas porque o amor é global. A cada três segundos uma criança morre de fome, e 100 mil pessoas morrem todos os dias por essa mesma causa. É a maior fronteira que temos na nossa frente e por ser tão grande, aparentemente insuperável, é fácil ignorá-la, mas é ela o nosso maior teste.

Nós temos que caminhar em direção a um mundo sem fronteiras. Nós, homens, somos iguais diante de Deus, temos a mesma dignidade, os mesmos direitos e os mesmos deveres, temos o direito de que nossa consciência seja respeitada, não somos escravos de ninguém. Porém, não podemos realizar tudo isso e enfrentar todas essas fronteiras sozinhos. Temos a responsabilidade de cultivar a comunidade e a esperança, de colocar em prática os ensinamentos e os valores em que dizemos acreditar e professar. A esperança não elimina a dificuldade e a complexidade dos problemas de fronteira, mas cresce no momento em que aceitamos acolhê-los e enfrentá-los. Caso contrário, tudo permanece apenas matéria de congresso.  

Simone Bernardi e Lorenzo Nacheli
Alunos da Faculdade de Teologia São Bento


* O SERMIG - Fraternidade da Esperança, fundado na Itália em 1964 por Ernesto Olivero e por sua esposa Maria, é uma comunidade de consagrados e consagradas, casais e jovens que vivem o Carisma da Esperança e a Espiritualidade da Presença.