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“CONTA COMIGO” É DIZER: “QUERO A PAZ NÃO SÓ PARA MIM”

PAZ? Por que falar de paz? Há guerras no Brasil? Na cidade há milhares de pessoas sem casa, milhares de imigrantes procurando uma nova vida, milhares de jovens, de todas as classes sociais, que caem no tédio e na droga. Pode estar em paz uma cidade assim? E o que eu tenho a ver com isso?

Foi dessa forma, com essas provocações, que neste último sábado, 18 de maio de 2013, no Arsenal da Esperança, começou a 4ª edição do “CONTA COMIGO”, encontro anual com a juventude promovido pela Fraternidade da Esperança, que neste ano tinha como tema: “QUERO A PAZ, NÃO SÓ PARA MIM”.

Na primeira parte do encontro, foram projetadas algumas imagens daquilo que podemos observar, todo dia, percorrendo as ruas da cidade... A sequência terminou com uma foto reproduzindo uma rua em que três moças caminham em direção a uma faculdade e, ao lado delas, estão outros jovens, deitados na calçada. Uma imagem difícil, que carrega toda a complexidade de uma realidade que pode ser debatida e interpretada de mil maneiras, acarretando críticas, divisões, reclamações... Em preparação ao evento, um grupo de acolhidos do Arsenal construiu um cenário reproduzindo exatamente a rua daquela foto. Literalmente, trouxemos aquela rua para dentro do encontro...

Os mais de 300 jovens presentes, estudantes de 24 escolas de São Paulo e da região metropolitana, não ouviram a análise de um especialista e nem o testemunho das partes, simplesmente foram recebidos naquele cenário e convidados a se sentar no chão. Ao lado deles, as pessoas que todo dia cruzam o nosso caminho e que frequentemente ignoramos: homens em situação de rua, imigrantes da África e do Haiti, jovens à procura de uma nova vida, distantes da droga e de outros vícios... Naquela rua, feita de papelão, essas pessoas foram aos poucos se levantando e, passando no meio dos jovens, caminharam em direção a uma porta aberta, acolhedora, no fundo do salão.

Logo em seguida, os próprios jovens foram convidados a também se levantarem e a atravessarem aquela mesma porta para entrar no coração das atividades cotidianas do Arsenal, uma casa feita por pessoas que todo dia oferecem uma acolhida digna para outras pessoas, uma comunidade aberta para receber quem está sem casa, sem pátria, sem rumo, uma comunidade que começou a fazer tudo isso solicitada por um jovem que, um dia, num encontro sobre a paz, apontou o dedo para o nosso fundador e disse: “Onde você vai dormir nesta noite? Você sabe que eu e meus amigos dormimos na rua? Você que fala de paz dormirá num lugar quentinho, mas quem é que se preocupa conosco?”.

Aquela frase mudou a nossa vida! Entendemos que não era possível estar em paz numa cidade assim e tomamos uma decisão: “QUERO A PAZ, NÃO SÓ PARA MIM” (Ernesto Olivero). Fomos descobrindo que se na nossa cidade há milhares de pessoas na rua, de imigrantes e de jovens sem rumo, é por nós mesmos que podemos começar para resolver esses “problemas”, procurando nos libertar da indiferença, do egoísmo, da ansiedade de “ser alguém na vida” para começar a ser alguém para os outros, escolhendo a disponibilidade, a gratuidade, a responsabilidade, percorrendo assim um caminho feito de coisas pequenas, simples, como arrecadar roupas e alimentos, preparar louças, copos e talheres para servir milhares de refeições, arrumar centenas de camas, cuidar da limpeza dos locais de acolhida, dobrar centenas de toalhas... Foi isso, e muito mais, que os jovens do “CONTA COMIGO” fizeram neste sábado, divididos aleatoriamente em 20 grupos. Alguns trabalhando dentro do Arsenal e outros fora para cuidar de um parque e das ruas do bairro, visitar crianças com deficiência, idosos em um asilo... Por que QUEREMOS A PAZ, NÃO SÓ PARA NÓS!

A experiência de construir a paz, muitas vezes teorizada, idealizada ou considerada como um trabalho para “especialistas do ramo” é algo que ajuda qualquer pessoa a descobrir que há dons enormes dentro de nós, que nos foram oferecidos e que não podem ser deixados no plano do “meu”, do “para mim”, mas têm que ser compartilhados, praticados para se abrir ao “nosso”, ao “para nós”.

Dizer SIM a essa experiência, e começar a praticá-la com constância, constrói a paz em nós e, sendo construída em nós, essa paz constrói um mundo diferente. Frases como a da Karina, uma das jovens participantes do evento, “Gostei muito. Estou mais leve, foi uma limpeza na alma. Espero que outros jovens se sintam assim também” são para nós uma chave para reconhecer que vale a pena continuar a se confrontar com o coração sincero dos jovens: eles são o nosso espelho.