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CONTA COMIGO 2013: faltam duas semanas!!!

Faltam poucos dias para o 4º Encontro “CONTA COMIGO”...

Um momento muito importante para a Fraternidade da Esperança e para todos os amigos do Arsenal da Esperança. Importante porque queremos bem aos jovens: aos que acolhemos em nossa casa, àqueles que encontramos nas escolas, na comunidade, àqueles que trabalham, que sofrem, que sonham... Aos jovens do mundo inteiro. O tema desta edição é: “QUERO A PAZ, NÃO SÓ PARA MIM”.

Paz? Por que falar de paz? Há guerras no Brasil?

Fernando é natural de São Paulo, tem 22 anos, Ensino Fundamental incompleto e uma profissão: ajudante de pedreiro. Mas Fernando tem um histórico de dependência química e, com a perda dos pais, o problema se agravou: tornou-se usuário de crack. Ficou internado para tratamento várias vezes. Há dois anos vem migrando entre várias cidades do estado, morando em albergues e também nas ruas. A única referência é uma madrinha que mora em São Paulo, mas, há mais de um ano, não tem contato com ela.

Paul não fala português; fala francês, que é o idioma do país dele, o Mali, África Ocidental. Ele tem 20 anos e chegou ao Brasil há três meses. Veio para cá solicitar refúgio após o agravamento do conflito interno de seu país, onde seus pais e dois irmãos pequenos foram mortos por soldados. Seu objetivo é aprender o português para depois estudar e voltar ao seu país na esperança de que a situação melhore.

Felipe tem 22 anos, estuda jornalismo e trabalha numa empresa de comunicação onde se dedica à produção de conteúdos para revistas esportivas. Cinco meses atrás envolveu-se em uma briga entre torcidas organizadas e o juiz o condenou a cumprir um ano de prestação de serviço à comunidade no horário dos jogos. Por meio de uma parceria com a Secretaria de Administração Penitenciária, Felipe foi encaminhado para prestar serviço no Arsenal da Esperança.

Fernando, Paul, Felipe, três pessoas entre os milhares que continuamente cruzam o portão do Arsenal da Esperança procurando pela paz. Vidas, histórias, rostos diferentes que nos dizem que há muitas guerras nesta cidade, em volta de nós, cujas causas são complexas, variadas e, muitas vezes, ignoradas.

Denunciar ou viver?

Uma das passagens fundamentais na história da Fraternidade da Esperança foi quando, na década de 60, nos colocamos esta questão: “denunciar ou viver?”. E tomamos a decisão de viver, isto é, de sermos não apenas gente que denuncia, que grita, que pronuncia palavras de justiça, de paz, de solidariedade, mas pessoas que começam a viver a justiça, a paz, a solidariedade a partir de suas vidas, dando testemunho disso. Sabíamos o que queríamos, mas como fazer?

Um dedo apontado nos indicou o caminho da PAZ

Um dia, durante um encontro de sensibilização sobre a paz, um jovem se levantou e apontando o dedo para Ernesto Olivero, o nosso fundador, lhe fez uma pergunta seca e direta: “Onde o senhor vai dormir nesta noite? O senhor fala de paz, de justiça, de solidariedade, mas o senhor sabe que nesta cidade há centenas de pessoas que, como eu, dormem nas ruas, nos carros, embaixo dos viadutos? Onde o senhor vai dormir nesta noite?”. 

Aquele dedo apontado mudou a nossa vida e a de muitos outros, porque nos indicou o caminho e a possibilidade concreta de construir a PAZ. Depois de acolher aquele primeiro jovem, aos poucos, começamos a conhecer o nome, o rosto, a história de muitas outras pessoas vítimas ou protagonistas das tantas guerras da nossa cidade: jovens, encarcerados, mulheres exploradas, homem em situação de rua, etc.

Hoje, nos Arsenais, milhares dessas pessoas saíram do anonimato, da degradação, do desespero e encontraram um lugar para respirar, uma oportunidade de paz. Se tivéssemos respondido: “Não cabe a nós, é culpa das instituições, não temos tempo, é perigoso...” com certeza teríamos uma vida diferente, com muito menos problemas, menos preocupações, mas estaríamos ainda polemizando contra a guerra e palestrando sobre a PAZ. Quanto BEM não teríamos deixado de fazer! 

Aquele jovem com o dedo apontado não encontrou a nossa indiferença, mas sim a nossa consciência, a nossa atenção, a nossa abertura e, com isso, vieram, também, os recursos, as soluções: muitas pessoas disponibilizaram seu tempo, seus talentos, doaram sua vida.

A proposta do CONTA COMIGO não será dizer aos jovens participantes: “Vocês podem encarar e resolver todas as guerras complexas desta cidade”... Seria uma mensagem apressada e, talvez, irresponsável. Não, aquilo que compartilharemos e realizaremos, na manhã do dia 18 DE MAIO, será como dar um pequeno passo na direção da PAZ: reservar um pouco do nosso tempo para encontrar algumas situações, problemas, pessoas que a mídia, a sociedade e, muitas vezes, a nossa superficialidade rotulam e diminuem facilmente como o problema dos moradores de rua, das cracolândias, dos imigrantes, dos jovens infratores, etc.

Fazer com que essas pessoas comecem a entrar, pelo menos um pouco, no hall de nossa vida, ajuda a superar a indiferença, o medo, a desarmar muitos preconceitos, a começar a olhar os outros de outra forma, entendendo que ninguém pode ser considerado um problema, um excluído, um estrangeiro, um sem esperança, mas, sim, uma pessoa como nós, cujo problema não só nos interpela, mas nos ajuda a crescer, a entender quem somos, a descobrir em nós capacidades que nem teríamos imaginado e a colocá-las à disposição, em benefício de todos, NÃO SÓ PARA MIM.