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Quem é Dom Luciano?

Dom Luciano Pedro Mendes de AlmeidaPara quem o conheceu, Dom Luciano foi um santo que atravessou a história religiosa, política, econômica... do Brasil e do mundo, por onde “passou fazendo o bem”.

Quem não o conheceu, deve saber que de 1930 a 2006 nasceu no Brasil e viveu para o mundo um homem de Deus, um homem bom, amigo da paz e dos pobres e rico em misericórdia para com todos. Para a nossa Fraternidade, Dom Luciano foi o maior homem que o Senhor nos fez conhecer e amar, mas também o menor que encontramos, um homem grande que nunca cessou de ser pequeno. 

Não sendo possível reproduzir aqui os inúmeros testemunhos, documentos, histórias e, sobretudo, as emoções que descrevem o encontro e a amizade com ele, valemo-nos de dois breves textos: 

Dom Luciano Pedro Mendes de Almeida no refeitório do Arsenal da EsperançaPerguntando sobre seu modo de ser, Dom Luciano responde: Em primeiro lugar, sinto-me chamado a viver o momento presente, sem perder, é claro, a visão do futuro. Sou um homem apaixonado pelo presente, enquanto sei que o presente não volta mais! O passado tem o seu valor, sem dúvida, na unidade da pessoa; o futuro possui a novidade da surpresa, mas o presente, o que é? É aquele momento de transparência da consciência no qual a pessoa é chamada a entrar em comunhão com Deus no evento, a partilhar o sofrimento e a alegria na presença de Deus. Isso me parece bonito: de um lado, porque a pessoa tem sempre alguma coisa a fazer, sendo chamada a viver o desafio do momento presente; do outro, tem um pouco de paz, porque cada momento leva consigo uma beleza especial, um pouco da Graça de Deus.

Outra característica minha é que me deixo envolver mais pelo sofrimento do que pela alegria, não porque o sofrimento seja maior do que a alegria, mas porque, sabendo com certeza o quanto, no mundo, o sofrimento esteja presente no coração dos homens, sinto vergonha de viver momentos de alegria. Parece-me que a alegria que existe no mundo seja um sinal daquela mais plena que um dia teremos, mas que hoje o chamado mais forte seja o de partilhar com os outros os momentos difíceis, o sofrimento, e, exatamente, o momento presente.

Partilhar com os outros o sofrimento faz crescer em nós a experiência do amor. Sinto-me chamado a viver o presente e, no presente, a partilhar o sofrimento, a doença, a solidão e também a consciência que a pessoa pode ter do seu sofrimento, de sua pobreza.

Depois de um dia de trabalho, estou cansado; porém, embora saiba que no dia seguinte terei várias coisas para fazer, se encontro uma pessoa que sofre, sinto-me impulsionado a ir visitá-la à noite. Nem todos entendem o quanto é importante para mim a vontade de conhecer a grandeza de certas situações que, talvez, segundo outras categorias humanas, parecem pequenas. Não entendem que essas coisas me dão uma força nova para enfrentar os compromissos do dia seguinte.

Outra característica de minha pessoa é uma mistura de amor por esta vida e de desejo da outra vida. Amor a esta vida, porque há muito a fazer; desejo da outra, porque é este mundo, onde há o pecado, que nos faz sofrer. É a mistura do presente com o futuro prometido que impede a vida de ser plena, enquanto a empurra para aquilo que ainda não existe; da mesma maneira, faz com que se manifeste a verdade do nosso ser e, ao mesmo tempo, a sua situação incompleta”.

Ernesto Olivero, “Unidos em favor da Paz: diálogos com D. Luciano Mendes de Almeida”, São Paulo, Loyola, 2001.

Ernesto OliveroEntrevistado sobre sua amizade com Dom Luciano, Ernesto Olivero responde: “Creio que a amizade com ele seja a mais importante da nossa história. É uma grande bênção. Eu o conheci em janeiro de 1988, quando ele veio nos encontrar em Turim. A imagem que eu tinha dele era a de um grande prelado, e quem veio me encontrar, na realidade, foi um padre humilde, vestido modestamente.

Queríamos que ele nos falasse do Brasil, mas acabou nos falando do Líbano, onde estivera havia pouco. Sugeriu-me que eu fosse até lá, apresentou-me ao patriarca maronita, que me convidou a visitar seu país, onde encontrei os jovens libaneses. Graças à amizade com dom Dom Luciano, que entrou tão inesperadamente em nossa vida, pudemos fazer obras de caridade no Líbano, na Somália, em Ruanda, no Iraque. Ter conhecido um homem tão enraizado em Deus e na Igreja, tão disponível, foi realmente um dos dons mais belos que o Senhor nos concedeu. Mudou a nossa vida. Graças a Dom Luciano, o Oriente Médio se tornou a nossa casa. Se o Brasil, hoje, é também nossa casa, se em 1996 pudemos criar em São Paulo o Arsenal da Esperança, que todos os dias fornece acolhida para milhares de pessoas, foi graças a ele”.

Paolo Mattei, “O início? Uma comoção à qual eu disse sim”, em 30 Dias, n. 2, 2004.