Sermig

Ernesto Olivero recorda Dom Luciano

Escolhi nas minhas lembranças alguns passos marcantes do encontro entre a vida de Dom Luciano e a minha.

Dom Luciano é para mim, mas posso dizer que também para cada um do SERMIG - Fraternidade da Esperança, desde os mais velhos até os mais jovens, o amigo precioso, o irmão, o pai, o pastor, o modelo de vida cristã no qual inspirar-se.

O seu testemunho de amor a Deus e aos irmãos está impresso em cada página da nossa existência pessoal e de Fraternidade, nas histórias das famílias da nossa Fraternidade, assim como nos projetos de desenvolvimento nos países mais pobres do mundo.

Não há decisão que não tenha sido tomada sem consultá-lo por telefone, quando estava na Itália ou em qualquer parte do Brasil ou do mundo, e nos últimos meses da sua vida em que, forçadamente, não podia mais falar-lhe e ele não podia mais responder-me, encontrei-me muitas vezes dizendo comigo mesmo: “Dom Luciano diria assim, Dom Luciano faria assim...”. Uma sintonia, uma comunhão, uma ligação que não se extinguiu no domingo 27 de agosto, mas que continua mais sólida na fé.

Quando falo de Dom Luciano aos jovens que encontro – sempre fascinados por Francisco de Assis – digo que conheci um homem tão bom ao ponto de parecer irreal, um Francisco de Assis “moderno”. Não exagero, estou convencido disso e não sou o único a pensar assim.

Dom Luciano é um homem que “fica bem” em cada página do Evangelho, um cristão manso e forte, puro e cristalino, que sabia escutar, mas também falar, que sabia ser tênue, mas também inflexível, um cristão bom como o pão, mas com uma inteligência de grande estadista. Um cristão vinte e quatro horas por dia, um cristão “número um” que sabia ficar tranquilamente em último lugar, um cristão que teve que administrar tanto poder, mas que o usou exclusivamente a serviço dos outros.

Quem o conheceu em seu cotidiano sabe que nele a bondade, a mansidão, a capacidade de perdão, o amor pelos pobres, a atenção à pessoa conjugavam-se com a inteligência finíssima, com a capacidade de viver os problemas em sua complexidade e universalidade, com uma cultura incomum e curiosidade por toda expressão de vida... Era essa completude que surpreendia, em um homem com um aspecto tão humilde, simples no vestir, capaz de levantar-se primeiro da mesa e servir seus hospedes, com simplicidade e naturalidade.

Também em seus últimos meses de vida, o tratamento muito doloroso no hospital, o agravamento da doença não mudaram seu íntimo. Gianfranco Mellino, da Fraternidade da Esperança de São Paulo – que o acompanhou nos últimos dois meses de hospital – escreveu-me: “Nestes dias, estando com Dom Luciano mais de perto e com mais tempo, vi a fraqueza vencida por uma grande força! A fraqueza existia, talvez por um momento, parecia que tudo estava acabado, a fraqueza de um corpo cansado, de um corpo vencido por uma “doença”. Mas uma vez mais a grandeza de Dom Luciano venceu: mais uma vez os outros são mais importantes, o “obrigado” continua a ser pronunciado pelos lábios “cansados”, mas fortes, o sorriso de um rosto cansado que emana luz e esperança, a voz fraca que nos diz que estamos nas mãos de Deus em cada momento... Seja feita a Sua vontade, a oração é sempre pelos outros que sofrem... E assim por diante... Mais uma vez um exemplo de vida! Obrigado, caro Ernesto, por tê-lo encontrado e colocado em nosso caminho!”.

Encontrei Dom Luciano pela última vez – mas esperava tanto que não fosse assim, que permanecesse entre nós... – no dia 3 de agosto de 2006. Foi um dos últimos dias em que pôde se comunicar conosco e me acolheu com a sua ternura de sempre. Passamos cinco horas juntos no quarto do hospital, cinco horas em que com os longos momentos de silêncio se alternaram os conselhos, as preocupações, os desejos.

Conservo como um tesouro precioso as suas ultimas palavras: “Estou nas mãos de Deus Bom e Pai. Sinto-O muito perto. É um momento feliz de abandono. Toda a minha vida é sempre em completa confiança a Deus e a Nossa Senhora. Mas nestes últimos dias me uno ainda mais ao Senhor. Ofereço tudo para a Igreja, com amor e com fé. É a hora da confiança... Ernesto, agradeça a todos os seus amigos: estou muito feliz. Estou nas mãos de Deus. Aquilo que Deus quer, eu quero. Estou cansado, mas me confio a Deus e ofereço tudo para o Papa que amo muito e por quem rezo. Obrigado pela sua oração e a do SERMIG. Deus nos conserve sempre assim”.

Antes de ir embora lhe pedi uma palavra para os jovens dos Arsenais... “A coisa mais bonita para dizer a todos eles”, ele respondeu com um fio de voz,: “é se consagrar ao Senhor”.

Ernesto Olivero